segunda-feira, 28 de abril de 2008

O sereno e as rãs

O SERENO E AS RÃS



Ante o sol que se punha, a casa escondia-se nas sombras nascentes da noite da pequena cidade. Um pássaro dava seu último grito e o torpor monótono das cigarras anunciava o ritual rotineiro iniciado no crepúsculo.
O cheiro do barro tornava-se envolvente com o sereno e, dentro da casa, só se ouvia o roçar das cortinas e o estalar das madeiras.
Móveis e objetos sugeriam efemeridade e abandono. Em cima da mesa , o gato desviava da louça suja para pular a janela emitindo seu miado de despedida , e também abandonava a casa descompromissadamente para retornar sorrateiro só pela virada da madrugada. Era uma casa morta, mas carregada de tempo. Era uma casa de almas.
João descascava vagarosamente uma laranja na varanda, os pés apoiados num velho vira-lata que dormia cercado de moscas. Tinha os olhos secos e duros de quem não acredita mais em lágrimas, os braços encolhidos e trêmulos, e o peito arqueado pelo peso da solidão.
Há muitos anos assistia a noite cumprir seu ritual, e os dias seguiam arrastados como fardos mornos e tristes. O odor da sua velhice escondia-se nas suas unhas grossas e roxas, nas veias cansadas e na pele de covas fundas, secas, baças.
Tentava, neste momento, esforçar-se para recordar o rosto de seu último filho homem e riu-se de si mesmo. Ria de um jeito irônico e quase doente, porque pensava já ter abandonado as lembranças: artifício dos covardes e dos ingênuos.
Na verdade, até mesmo a irritação lhe parecia infundada , mas os pensamentos assaltavam-no vez por outra, como uma febre alta, e costumavam trazer uma quase angústia que o envolvia em fragmentos de imagens, sons, cenas ou feições que reconstruía em ondas doloridas, perdidas e soltas.
Coisa estranha o tempo, pensava. Como atestar a veracidade dos acontecimentos quando não há mais testemunhas e quando o que deixam são apenas marcas num corpo velho e exausto? Eu quase posso ouvir, de algum lugar, as suas gargalhadas. Afinal, covarde, porque não vens ter comigo? Quem és tu? És um algoz implacável que usurpa momentos num ceifar impaciente e frio ou fantasma cuspidor de ilusões que inventei para justificar a razão de viver... Agora só sinto a cabeça cansada que tu derrubastes para marcar sua presença a golpes de amanhã!
Onde estará Antônio? Tenho medo de duvidar do dia do seu nascimento, será uma alucinação? Seria uma alucinação o barulho daquela carroça de boi, indo embora naquele sol, o seu grito e o seu aceno que parecia rasgar meu coração?
Nesses momentos de lucidez, mesmo na escuridão podia-se ver o reflexo de luz nos seus olhos, como dois vagalumes . Porém, eram lampejos rápidos e passageiros. Logo retornavam seus movimentos curtos e mecânicos, e o cinza do olhar diluía-se no conjunto de carnes.
Alguns anos atrás , passava horas a relatar suas visões ao cão preguiçoso, até que paulatinamente falar tornou-se inútil, e enlouquecer um apelo vazio.
Precisava entregar-se , render-se àquele peso; quis ir com os outros, fazer como eles, e assim abandonar-se.
Não pensava mais na morte, porque ela já havia se tornado sua companheira, ela estava ali, sentava-se com ele, e assistia ao suceder dos dias, pacientemente. Outrora, costumava fazer hipóteses acerca do que viria depois que ela o levasse , culpava-se , julgava-se e justificava-se. Mas não mais. Não agora que a noite descia mais uma vez o seu manto perfumado e úmido. Não agora que suas recordações não lhe pertencem mais, que até o tempo já havia ido embora. Agora era só o cheiro do barro, e o barulho das rãs.



01/2000