O SERENO E AS RÃS
Ante o sol que se punha, a casa escondia-se nas sombras nascentes da noite da pequena cidade. Um pássaro dava seu último grito e o torpor monótono das cigarras anunciava o ritual rotineiro iniciado no crepúsculo.
O cheiro do barro tornava-se envolvente com o sereno e, dentro da casa, só se ouvia o roçar das cortinas e o estalar das madeiras.
Móveis e objetos sugeriam efemeridade e abandono. Em cima da mesa , o gato desviava da louça suja para pular a janela emitindo seu miado de despedida , e também abandonava a casa descompromissadamente para retornar sorrateiro só pela virada da madrugada. Era uma casa morta, mas carregada de tempo. Era uma casa de almas.
João descascava vagarosamente uma laranja na varanda, os pés apoiados num velho vira-lata que dormia cercado de moscas. Tinha os olhos secos e duros de quem não acredita mais em lágrimas, os braços encolhidos e trêmulos, e o peito arqueado pelo peso da solidão.
Há muitos anos assistia a noite cumprir seu ritual, e os dias seguiam arrastados como fardos mornos e tristes. O odor da sua velhice escondia-se nas suas unhas grossas e roxas, nas veias cansadas e na pele de covas fundas, secas, baças.
Tentava, neste momento, esforçar-se para recordar o rosto de seu último filho homem e riu-se de si mesmo. Ria de um jeito irônico e quase doente, porque pensava já ter abandonado as lembranças: artifício dos covardes e dos ingênuos.
Na verdade, até mesmo a irritação lhe parecia infundada , mas os pensamentos assaltavam-no vez por outra, como uma febre alta, e costumavam trazer uma quase angústia que o envolvia em fragmentos de imagens, sons, cenas ou feições que reconstruía em ondas doloridas, perdidas e soltas.
Coisa estranha o tempo, pensava. Como atestar a veracidade dos acontecimentos quando não há mais testemunhas e quando o que deixam são apenas marcas num corpo velho e exausto? Eu quase posso ouvir, de algum lugar, as suas gargalhadas. Afinal, covarde, porque não vens ter comigo? Quem és tu? És um algoz implacável que usurpa momentos num ceifar impaciente e frio ou fantasma cuspidor de ilusões que inventei para justificar a razão de viver... Agora só sinto a cabeça cansada que tu derrubastes para marcar sua presença a golpes de amanhã!
Onde estará Antônio? Tenho medo de duvidar do dia do seu nascimento, será uma alucinação? Seria uma alucinação o barulho daquela carroça de boi, indo embora naquele sol, o seu grito e o seu aceno que parecia rasgar meu coração?
Nesses momentos de lucidez, mesmo na escuridão podia-se ver o reflexo de luz nos seus olhos, como dois vagalumes . Porém, eram lampejos rápidos e passageiros. Logo retornavam seus movimentos curtos e mecânicos, e o cinza do olhar diluía-se no conjunto de carnes.
Alguns anos atrás , passava horas a relatar suas visões ao cão preguiçoso, até que paulatinamente falar tornou-se inútil, e enlouquecer um apelo vazio.
Precisava entregar-se , render-se àquele peso; quis ir com os outros, fazer como eles, e assim abandonar-se.
Não pensava mais na morte, porque ela já havia se tornado sua companheira, ela estava ali, sentava-se com ele, e assistia ao suceder dos dias, pacientemente. Outrora, costumava fazer hipóteses acerca do que viria depois que ela o levasse , culpava-se , julgava-se e justificava-se. Mas não mais. Não agora que a noite descia mais uma vez o seu manto perfumado e úmido. Não agora que suas recordações não lhe pertencem mais, que até o tempo já havia ido embora. Agora era só o cheiro do barro, e o barulho das rãs.
01/2000
segunda-feira, 28 de abril de 2008
quinta-feira, 20 de março de 2008
Melhor amigo
Melhor Amigo (para o Felipe)
Suas patas tão ligeiras
De um gordinho bem piloso
Vêm manhazinha arranhar
O canto triste do meu rosto:
Transforma-o todo em esgar
Para em fim roubar um sorriso!
Suas orelhas que pulam pesadas
Nessa doce espectativa
Visam por fim encontrar um amigo
(Não sem muita saliva).
Seu rabinho frenético
Arrebita ao menor movimento.
Entre os tufos, o olhar atento
esperança de mágico momento...
Ah, olhinhos tão brilhantes!
Parece trazer uma mensagem.
A vida é nova, a cada segundo
Alegria de doce passagem.
Por baixo de seus pêlos me pergunto,
Quando encostas maroto o focinho molhado:
Onde será, será deste mundo
Donde vêm o cão que vela meu sono, calado?
Suas patas tão ligeiras
De um gordinho bem piloso
Vêm manhazinha arranhar
O canto triste do meu rosto:
Transforma-o todo em esgar
Para em fim roubar um sorriso!
Suas orelhas que pulam pesadas
Nessa doce espectativa
Visam por fim encontrar um amigo
(Não sem muita saliva).
Seu rabinho frenético
Arrebita ao menor movimento.
Entre os tufos, o olhar atento
esperança de mágico momento...
Ah, olhinhos tão brilhantes!
Parece trazer uma mensagem.
A vida é nova, a cada segundo
Alegria de doce passagem.
Por baixo de seus pêlos me pergunto,
Quando encostas maroto o focinho molhado:
Onde será, será deste mundo
Donde vêm o cão que vela meu sono, calado?
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Incômodo Silêncio
Perversa pergunta!
A tristeza é onda é mar
Por que estás triste?-perguntas
pela não-razão que o vento
há de ventar
Emoção colorida
dolorida
não escolho nem mando
Quanto mais procuro, encontro
não consigo não calar
Doce amiga
atravessa as veias do coração
Passa por mim despercebida
murmúrio quente, distante canção
Lava leve o meu pensar
escorre dos olhos a dor do mundo
Faz belos os campos
Profundo
Revela a vida e sua perda
Torna rio em seu passar.
A tristeza é onda é mar
Por que estás triste?-perguntas
pela não-razão que o vento
há de ventar
Emoção colorida
dolorida
não escolho nem mando
Quanto mais procuro, encontro
não consigo não calar
Doce amiga
atravessa as veias do coração
Passa por mim despercebida
murmúrio quente, distante canção
Lava leve o meu pensar
escorre dos olhos a dor do mundo
Faz belos os campos
Profundo
Revela a vida e sua perda
Torna rio em seu passar.
Semente
Quando abris-te teus olhinhos pequeninos
dentro dos sonhos meus
vi que o mundo é largo ninho
para cuidar dos seus.
De repente seu sorriso
riu-se todo em seu olhar
e me disse bem baixinho:
_amor é canto de ninar...
Dorme, dorme minha criança
e espera o sol nascer
Dorme, dorme
como lembrança
filho meu que quero ter.
dentro dos sonhos meus
vi que o mundo é largo ninho
para cuidar dos seus.
De repente seu sorriso
riu-se todo em seu olhar
e me disse bem baixinho:
_amor é canto de ninar...
Dorme, dorme minha criança
e espera o sol nascer
Dorme, dorme
como lembrança
filho meu que quero ter.
No dia em que vi pássaros
Certa vez, vi pássaros.
Vi pássaros em uma passarada só.
E vi sonhos e vôos
num instante, pássaros, tantos!
em um pássaro apenas.
Vi pássaros em uma passarada só.
E vi sonhos e vôos
num instante, pássaros, tantos!
em um pássaro apenas.
Pausa
Procuro nos caminhos fluviais dos olhos
em meio a turvas águas
encontrar os outros mundos.
Como é rara a alegria que brota do riso
sem palavra
sem razão
sem nada.
em meio a turvas águas
encontrar os outros mundos.
Como é rara a alegria que brota do riso
sem palavra
sem razão
sem nada.
Rogativa
Inunda-me de estrelas
Faz ventar minhas lembranças
Inventa em mim idéias de nuvens
como as que exalam cheiro de coração
úmido e rubro
odor quente e molhado nas mãos
Invada os muros
até transbordar-me de pontes e furos
liqüida as rochas
faz brotar flores insistentes
Rebenta ternamente a concha cega
Obtusa janela de grades envolta
Torna-me, terna-me
Faz sangrar abundante
Para que eu não mais exista:
apenas a imensa certeza de viver.
Faz ventar minhas lembranças
Inventa em mim idéias de nuvens
como as que exalam cheiro de coração
úmido e rubro
odor quente e molhado nas mãos
Invada os muros
até transbordar-me de pontes e furos
liqüida as rochas
faz brotar flores insistentes
Rebenta ternamente a concha cega
Obtusa janela de grades envolta
Torna-me, terna-me
Faz sangrar abundante
Para que eu não mais exista:
apenas a imensa certeza de viver.
Tu que ouves as ondas do mar
Tu que ouves as ondas do mar
Que sentes a luz fina do sol
Pelas frestras da alma
Escuta também
A imensidão que paira ao redor
Esse som que inunda
Nas profundezas dos teus pensamentos.
Que sentes a luz fina do sol
Pelas frestras da alma
Escuta também
A imensidão que paira ao redor
Esse som que inunda
Nas profundezas dos teus pensamentos.
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